A mudança

Não sei se poderei chamar destino ou acaso ao que aconteceu…

Por mais que quisesse pintar a realidade, dificilmente o poderia fazer pois já é demasiado colorida e o exagero poderia levar a algo berrante. Não sendo isso que pretendo, vou limitar-me a contar a verdade…

O caminho foi traçado em duas semanas! Estava confiante, o pior que poderia acontecer seria ficar em casa um ano e começar a trabalhar. O boletim estava preenchido, apostei as fichas todas numa só opção. Seria loucura deixar as outras 5 vazias? Assim parecia, pelo ar de perplexidade quando me questionavam sobre a minha escolha. “Só? Então e o resto? Estás mesmo confiante que vais entrar?”

O meu sexto sentido dizia que sim! Dou muita atenção ao sexto sentido, não tenho memória de me ter deixado mal. Não garanto que seja o sexto, poderá ser o sétimo, quiçá o oitavo. Sempre fui muito intuitiva!

A minha mãe dá-lhe outro nome, diz que é apenas “sorte”…

Pois bem, o sentido (seja ele qual for) ou a sorte , ou ambos, não me deixaram ficar mal! 13 de Outubro de 2005 foi o virar de página. No dia seguinte, encontrava-me a caminho da Serra (era o meu único ponto de referência) para fazer a inscrição e encontrar casa.
Não me lembro claramente dos primeiros dias, sei que não foram nenhum choque! Estava a gostar de estar por minha conta, fazer os meus horários, etc. A independência tinha um sabor tão doce!

Tudo era novidade, tudo cheirava a novo. No entanto, as ruas tortuosas e os saltos altos não combinavam. Sentia-me a bimba da cidade de visita à aldeia! Até hoje, garanto que não desisti dos saltos, adaptei-me às ruas!

Sentia-me bem, tranquila, era a chamada “paz de espírito”. Estava a conhecer pessoas diferentes, hábitos e maneiras de estar distintas da minha.

Foi nessa altura que…

“Desculpa! Eu acho que te conheço de algum lado…”

Tudo mudou!

Para ti amor...

Perdão

Meu amor:
Sei que vais achar estranho receber esta carta. Nao vais achar só o acto em si estranho, mas também o conteúdo.
Tanta coisa que ficou por dizer desde a última vez que nos vimos. Talvez um simples telefonema resolvesse a situação que ainda está pendente, ou talvez não! Sei que devia ser paciente, mas nunca tive essa virtude e acredita, o esforço que tenho feito é descomunal. Tentei abstrair-me de tudo o que te dissesse respeito nestes dois meses e poderia dizer que fui bem sucedida, mas nao sou capaz, amor! Nao sou capaz de te mentir. A verdade é que têm sido os dois meses mais desesperantes da minha vida.
Quando me disseste que precisavas deste tempo para pensar na nossa relação, não julguei que levasse tanto tempo. Trocámos palavras tão amargas naquela noite, que ainda me perfuram a alma cada vez que me recordo. Sei que disse que enquanto não dissesses nada, não terias notícias minhas. Como podes ver, não estou a cumprir. Por ti, estou disposta a deixar de lado o orgulho e a mágoa que nos levou à separação… Este é apenas o meu primeiro passo!
Agora que penso claramente em tudo o que se passou, questiono-me constantemente como chegámos a tal ponto. A nossa relação era tão sólida, parecia tão inabalável… Lembras-te de como os nossos amigos nos invejavam? Não imaginas como me arrependo de ter tido aquela crise de ciúmes. Não foi a falta de confiança que acabou com tudo, tal como pensas. Foi o ciúme doentio que me cegou completamente e não me deixou ver o homem maravilhoso que és. Sinto-me tão impotente por não saber o que fazer. Estou de mãos e pés atados… E e assim que te peço: Perdoa-me!
Amo-te!

A fuga!

Sentia necessidade de lhe gritar, de o insultar e chamar à razão. Mas pelo contrário, falou calmamente e disse:
- Só quero entender o porquê… Mereço uma justificação!
Ele sabia que dificilmente se poderia esquivar, de adiar novamente aquele momento. Necessitava de uma resposta rápida e concisa, mas qual? Ele sabia que não tinha justificação, mas precisava de a silenciar…
- Tenho medo…
Ela estranhou a resposta. Sabia que tudo que ele dissesse seria mentira, ou preferia acreditar que assim fosse…
- Medo de estares comigo?!
- Não, medo de te amar.




Poema

Em todas as ruas te encontro
Em todas as ruas te perco
Conheço tão bem o teu corpo
Sonhei tanto tua figura
Que é de olhos fechados que eu ando
A limitar a tua altura
E bebo água e sorvo o ar
Que te atravessou a cintura
Tanto tão perto tão real
Que o meu corpo se transfigura
E toca o seu próprio elemento
Num corpo que já não é seu
Num rio que desapareceu
Onde um braço teu me procura
Em todas as ruas te encontro
Em todas as ruas te perco.

Mário Cesariny de Vasconcelos

Manifestações

Revoltantes, inquietantes… são assim que se descrevem estas últimas noites. Porque é que não me abandonas? Os sonhos são meus, pertencem-me. É cobardia tua manifestares-te e atacares-me desse modo tão cruel apenas quando estou a dormir, quando estou inconsciente e não te posso mandar embora.
Não adianta tapares-me a boca nem abafares os meus gritos (mesmo que ninguém os ouça, tu sabes o quanto eles teimam em sair). Não adianta enumerares as tuas novas conquistas. Não adianta vestires o papel de vítima. Não, não adianta quereres despertar em mim qualquer tipo de sentimento… Hoje, já nada disso me incomoda. Afinal, tudo se torna tão evidente, quando se sabe separar a ténue linha que divide esse sonho da realidade.

O sonho

Pelo Sonho é que vamos,
comovidos e mudos.
Chegamos? Não chegamos?
Haja ou não haja frutos,
pelo sonho é que vamos.

Basta a fé no que temos,
Basta a esperança naquilo
que talvez não teremos.
Basta que a alma demos,
com a mesma alegria,
ao que desconhecemos
e ao que é do dia-a-dia.

Chegamos? Não chegamos?

- Partimos. Vamos. Somos.

Sebastião da Gama


Renascer

Sinto que encontrei a alegria que há tanto me tinha sido retirada.
Agradecer-te, seria insuficiente comparado com a paciência e o carinho que me têm sido dedicados. Não consigo exprimir correctamente o turbilhão de sentimentos que me tem invadido, apenas sei que me faz incrivelmente bem e feliz.
Sim, as palavras por vezes são pérfidas e podem ferir o mais insensível dos seres e como tal não as vou usar em vão, não agora! Agora apenas tento demonstrar-te como as palavras podem ser coloridas, cheias de brilho e tornar ainda mais encantador o que nos une… Eu diria que é algo mágico, mas a magia é tão irreal, tão falsa e inexistente que não se pode aplicar ao que sinto. Qualquer mera definição seria escassa, como tal por mais belas que as palavras sejam é uma beleza finita. No entanto, o que me move é infinitamente grandioso…
O meu amor não me cegou, pelo contrário tornou-me lúcida e crente do que quero… Quero estar contigo e encontrar em cada gesto teu, a felicidade que nos espelha!




Dedicado a B*

Adeus

É difícil apercebermo-nos do instante em que nos perdoamos… Lutei, neguei e reneguei. No fim de trilhar todo o caminho tortuoso, respirei.
Finalmente, foi-me permitido expelir todo o sofrimento concentrado, toda a dor que me prendia os movimentos.
Após tanto tempo de enganos e desencontros, apercebi-me que afinal percorremos o mesmo caminho em busca da resposta que tanto nos teima em calar, apenas o fazemos em sentido inverso... Foi no momento do meu reencontro que te perdi e que me reergui.

De todas as palavras que foram gastas, só me resta a única que tem sido evitada:
Adeus!

Desfecho

Não tenho mais palavras.
Gastei-as a negar-te...
(Só a negar-te eu pude combater
O terror de te ver
Em toda a parte.)

Fosse qual fosse o chão da caminhada,
Era certa a meu lado
A divina presença impertinente
Do teu vulto calado
E paciente...

E lutei, como luta um solitário
Quando alguém lhe perturba a solidão.
Fechado num ouriço de recusas,
Soltei a voz, arma que tu não usas,
Sempre silencioso na agressão.

Mas o tempo moeu na sua mó
O joio amargo do que te dizia...
Agora somos dois obstinados,
mudos e malogrados,
Que apenas vão a par na teimosia.

Miguel Torga

Em espera...

Esperar, esperar, esperar… Cada vez me convenço mais que estou destinada a esperar por tudo e todos. A Luísa já começa a exceder-se na sua falta de pontualidade…
- Olá Ana! Desculpa o atraso, está um trânsito infernal, não deu mesmo para chegar mais cedo.
- Eu também tenho carro, também tenho de o estacionar e também apanhei trânsito, mas para cumprir o horário combinado, saí mais cedo!
- Ena, já vi que a noite foi longa…
- Nem imaginas quanto…
- O que é que aconteceu para estares nesse estado?
- A única coisa que nunca devia ter acontecido…
- Oh não! Não me digas que é o que estou a pensar… Voltaste para o Rui?
- Pior!
- Pior? Já me estás a assustar... Acordaste nalguma cama que não era tua, sem te aperceberes? (risos)
- Luísa, deixa-te de piadas! O assunto é sério.
- Ok, desculpa! Podes dizer, não te interrompo mais.
- Fui para a cama com… Bem, com o…
- Com o…
- Com o Tiago!
- Tiago? Que Tiago?
- Oh Luísa, o Tiago…
- Hã? Não acredito! O Tiago Gomes? O teu melhor amigo?!
- Sim, o próprio!
- Oh Ana, mas tu endoideceste? Gostas dele? Como é que isso aconteceu?
- Gosto, mas só como amigo, claro. Nem eu sei como é que aconteceu. Eu estava em casa sozinha, comecei a pegar nas cartas do Rui e lembrei-me dos nossos melhores momentos… Senti-me deprimida, entendes? Eu precisava de desabafar com alguém, como sabia que tinhas saído com o Pedro, liguei ao Tiago…
- Hmm hmm… E ele disponibilizou-se logo a ir ter contigo?!
- Sim… Eu comecei a falar de tudo que já tinha passado com o Rui, das coisas que ele já me tinha feito e num instante qualquer, ele abraçou-me e eu beijei-o…
- Pois, suponho que depois do sofá da sala para o quarto tenha sido num instante.
- Hmm hmm… O pior foi que hoje de manhã quando acordei, ele já tinha saído. Não deixou nenhum recado, não me telefonou o dia inteiro, nada. Não me disse rigorosamente nada, até agora.
- E o que é que estás a pensar fazer?
- Nada, fico à espera que ele ligue…
Continuo à espera, desta vez espero não ter perdido um amigo.

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