Carta de despedida de um Suicída

Querido Irmão,

Lamento não ter dito pessoalmente o quanto te amo e o quanto sofri todos estes anos pela tua existência.
Não penses que foi por ti que parti, mas é por ti que jamais regressarei.
Sei que tentaste tantas vezes apagar esse teu brilho natural, para que com algum esforço também eu me fizesse notar. Sei que não perdoas os nossos pais pela constante predilecção que manifestam por ti. Sei também que este é o momento de apaziguar essa tua revolta e de perdoares aqueles que sempre te amaram.
Não chores por mim, pois hoje sinto-me em paz! Jamais terei de lutar contra quem amo, jamais terei de me esforçar por ser quem não sou.
Mais que um irmão de sangue, és o meu irmão de alma! Aquele que sempre conheceu a minha verdadeira essência e nunca a inferiorizou.
É por ti irmão que parto, para te deixar livre de qualquer sentimento de culpa.
Apelo ao teu bom coração... Perdoa os nossos pais!

Com saudade,


A carta que nunca escreverei

Cara amiga:

Estranha a forma como tudo terminou, não achas? Na verdade tanta coisa se disse e se debateu nos tempos áureos da nossa “amizade”, que talvez quando chegou o momento de me virares costas um simples adeus não te tenha feito sentido.
Porém, tenho a dizer-te que faria todo sentido um porquê dessa decisão… Não é que sinta falta do teu companheirismo, pois nunca senti que tal houvesse da tua parte. No entanto, a meu ver, quem se intitula de “frontal” não toma uma atitude tão covarde.
Amiga, não penses que esta carta se trata de algum tipo de afronta pessoal, é apenas a minha opinião que te quero demonstrar. Talvez seja mais uma que irás contrariar ou maldizer, como sempre fizeste questão de evidenciar… Só assim consegues exercer a tua superioridade, não é verdade?
Não entendo porque te tornaste nesse ser um tanto ao quanto desprezível e mal-amado. Sentires-te feliz à custa da infelicidade dos outros é um pouco doentio, não concordas? Oh, claro que não! Nunca concordarias com algo que eu dissesse ou fizesse. Apoiares-me foi sempre algo que nunca te permitiste fazer… Sempre foi mais fácil mentir, humilhar e desprezar toda a amizade que te prestei e que nunca retribuíste.
Não posso dizer que te odeie, talvez te despreze… Resumindo, o que sinto é pena! Tenho pena na pessoa que te tornaste: alguém que será sempre infeliz por não saber retribuir o amor que lhe dão e apenas querer o que não lhe pode ser dado.
Mas enfim… Foi contigo que cresci, que passei os anos mais marcantes da minha juventude e como tal, dificilmente te irei esquecer. Serás sempre a amiga que não desejo a ninguém, mas também aquela que com palavras amargas e por caminhos tortuosos fez com que eu deixasse a ingenuidade de parte. Era através dela que via o ser que nunca foste e que eu tanto desejei que te tornasses…
Não te quero mal, infelizmente o mundo está cheio de pessoas como tu com as quais terei de lidar. Sejamos razoáveis, não posso virar costas a este mundo que endoidece diariamente aos meus olhos. Na maior parte das vezes, reajo da mesma maneira que faço contigo, ignoro a sua existência!
Atenciosamente,
Aquela a que chamaste irmã

Baunilha&Chocolate

Sempre se questionou pelas coisas mais evidentes. A necessidade de entender tudo e todos deixava-a impaciente, sempre com o “porquê?” prestes a escapar-lhe da boca. Lembro-me perfeitamente de uma das suas dúvidas, aquelas que surgiam sempre antes de deitar, no momento da despedida. Ela tinha cerca de 4 anos, ia dar-lhe um beijo de boa noite quando ela me perguntou - “Ana, conheces o Miguel da minha turma?”
“Sim, não é o teu melhor amigo?”
Um pouco reticente, respondeu “Penso que sim!”
“Então Maria, não tens a certeza?”
“Tenho, mas os meus colegas não gostam muito. Sabes, o Miguel é muito moreno e os outros meninos por causa disso não brincam com ele. E eu nunca entendi porquê, ele é muito simpático comigo e sei que fica triste por mais ninguém brincar com ele.”
Senti-me tentada a dizer que era puro racismo que os pais e a sociedade incutem na mente destas crianças. Mas a Maria era muito ingénua para perceber o mal que existe lá fora. Naquela altura a sua mente era pura e cheia de amor para dar, só ela conseguia pintar um mundo cheio de cores, sem ligar aos contrastes da vida. Para ela o amigo Miguel, era como todos os outros. Apenas “moreno”, dizia ela…
“E achas que é por ele ser «moreno»?”
Por instantes ficou pensativa e disse:
“Não sei, mas o Miguel gosta de mim e eu sou branquinha. E eu gosto do Miguel assim!”
“Então a vossa amizade é especial?”
“Hum hum…” anuiu. “É doce, assim como um gelado de baunilha e chocolate!” disse, toda sorridente.
Na altura apenas me ri e me despedi dela. Hoje, penso no quanto aquelas palavras eram sensatas. A Maria tinha apenas 4 anos e de maneira simples conseguiu identificar a beleza que existe na raça humana, o facto de sermos todos diferentes não é motivo para ser discriminatório. Pelo contrário, é “doce como um gelado de baunilha e chocolate”.


Sofia Simões



Amizade ou algo mais?

Já passaram duas semanas e o Tiago continua sem dizer nada! Sinto-me perto do desespero…
Aguentei 3 dias sem dizer nada, não quis dar muita importância à situação. Achei que o melhor seria agir como se nada tivesse acontecido… Mas ele não deixa! Porque é que ele não diz nada? Porquê? Sei que é o meu melhor amigo, mas não consigo deixar de pensar como aquela noite foi óptima.
Entre uma papelada e outra vem-me à memória os seus beijos, no café ouço o seu riso algures, a caminho de casa fico suspensa com o seu cheiro… Sinto-o em todo o lado, a cada esquina que viro vejo a sua cara em rostos desconhecidos! Não entendo o motivo para tanta obsessão, conheço o Tiago há tantos anos e isto nunca me aconteceu.

Tenho o telemóvel a tocar algures cá em casa… É ele, de certeza!
- Estou?!
- Olá desaparecida! Que é feito de ti?
- Ah… Olá Luísa! Tudo bem? Tenho tido imenso trabalho estes dias, desculpa!
- Pois, mas isso não é desculpa para não sairmos hoje. A Joana faz anos e quer que a gente vá ter com ela ao “Tocas” para bebermos uns copos!
- Hmm… Não sei, Luísa! Não me apetece muito, ando cansada… Queria aproveitar para descansar!
- Desculpas, só desculpas! Pensas que eu não sei que andas assim toda cabisbaixa por causa do Tiago?
- AH?!
- Sim minha menina! O facto de ele não te ter dito nada depois daquela noite anda a dar-te a volta aos cornos!
- Não sejas parva! Só estou preocupada com ele, não é normal ele ficar tanto tempo sem dizer nada.
- Claro, também não é muito normal ires para a cama com o teu melhor amigo!
- …
- Ana, só te digo isto para teu bem! Fala com ele, explica-lhe o que se passou e esclarece o que sentes.
- Já tentei! Ele não atende os meus telefonemas, não respondeu às minhas mensagens. Não posso andar a implorar a atenção dele.
- Ele deve andar tão confuso, coitado! Eu sempre achei que ele tinha um fraco por ti, nunca te disse nada por que não ias acreditar e ias dizer que eram histórias minhas, bla, bla, bla…
- Ia mesmo, porque não passa disso mesmo! Histórias, tretas…Entendes?
- Convence-te disso! E já agora tenta também convencer-te que só gostas dele como amigo. É que pelo menos a mim, não enganas minimamente. É óbvio que aquela noite mexeu contigo e é óbvio também que gostaste, senão já tinhas ficado plantada à porta dele até falarem sobre o assunto. Ambas sabemos que gostas das coisas bem esclarecidas e se ainda não o fizeste é porque andas a arranjar forma de te convenceres que o que te estou a dizer não é a verdade!
- Luísa, depois falamos. Ok? Dói-me a cabeça!
- Então mas vens logo, não vens?
- Onde?
- Aos anos da Joana! O Tiago disse que ia, era uma boa oportunidade para…
- Para falarmos? Não me parece que seja o local ideal. Mas confirmo logo! Beijo
- Tu é que sabes! Até logo então!

Será que a Luísa tem razão?
O Tiago é meu amigo, sempre foi… Uma boa cama não pode mudar isso, ou pode
?

A mudança

Não sei se poderei chamar destino ou acaso ao que aconteceu…

Por mais que quisesse pintar a realidade, dificilmente o poderia fazer pois já é demasiado colorida e o exagero poderia levar a algo berrante. Não sendo isso que pretendo, vou limitar-me a contar a verdade…

O caminho foi traçado em duas semanas! Estava confiante, o pior que poderia acontecer seria ficar em casa um ano e começar a trabalhar. O boletim estava preenchido, apostei as fichas todas numa só opção. Seria loucura deixar as outras 5 vazias? Assim parecia, pelo ar de perplexidade quando me questionavam sobre a minha escolha. “Só? Então e o resto? Estás mesmo confiante que vais entrar?”

O meu sexto sentido dizia que sim! Dou muita atenção ao sexto sentido, não tenho memória de me ter deixado mal. Não garanto que seja o sexto, poderá ser o sétimo, quiçá o oitavo. Sempre fui muito intuitiva!

A minha mãe dá-lhe outro nome, diz que é apenas “sorte”…

Pois bem, o sentido (seja ele qual for) ou a sorte , ou ambos, não me deixaram ficar mal! 13 de Outubro de 2005 foi o virar de página. No dia seguinte, encontrava-me a caminho da Serra (era o meu único ponto de referência) para fazer a inscrição e encontrar casa.
Não me lembro claramente dos primeiros dias, sei que não foram nenhum choque! Estava a gostar de estar por minha conta, fazer os meus horários, etc. A independência tinha um sabor tão doce!

Tudo era novidade, tudo cheirava a novo. No entanto, as ruas tortuosas e os saltos altos não combinavam. Sentia-me a bimba da cidade de visita à aldeia! Até hoje, garanto que não desisti dos saltos, adaptei-me às ruas!

Sentia-me bem, tranquila, era a chamada “paz de espírito”. Estava a conhecer pessoas diferentes, hábitos e maneiras de estar distintas da minha.

Foi nessa altura que…

“Desculpa! Eu acho que te conheço de algum lado…”

Tudo mudou!

Para ti amor...

Perdão

Meu amor:
Sei que vais achar estranho receber esta carta. Nao vais achar só o acto em si estranho, mas também o conteúdo.
Tanta coisa que ficou por dizer desde a última vez que nos vimos. Talvez um simples telefonema resolvesse a situação que ainda está pendente, ou talvez não! Sei que devia ser paciente, mas nunca tive essa virtude e acredita, o esforço que tenho feito é descomunal. Tentei abstrair-me de tudo o que te dissesse respeito nestes dois meses e poderia dizer que fui bem sucedida, mas nao sou capaz, amor! Nao sou capaz de te mentir. A verdade é que têm sido os dois meses mais desesperantes da minha vida.
Quando me disseste que precisavas deste tempo para pensar na nossa relação, não julguei que levasse tanto tempo. Trocámos palavras tão amargas naquela noite, que ainda me perfuram a alma cada vez que me recordo. Sei que disse que enquanto não dissesses nada, não terias notícias minhas. Como podes ver, não estou a cumprir. Por ti, estou disposta a deixar de lado o orgulho e a mágoa que nos levou à separação… Este é apenas o meu primeiro passo!
Agora que penso claramente em tudo o que se passou, questiono-me constantemente como chegámos a tal ponto. A nossa relação era tão sólida, parecia tão inabalável… Lembras-te de como os nossos amigos nos invejavam? Não imaginas como me arrependo de ter tido aquela crise de ciúmes. Não foi a falta de confiança que acabou com tudo, tal como pensas. Foi o ciúme doentio que me cegou completamente e não me deixou ver o homem maravilhoso que és. Sinto-me tão impotente por não saber o que fazer. Estou de mãos e pés atados… E e assim que te peço: Perdoa-me!
Amo-te!

A fuga!

Sentia necessidade de lhe gritar, de o insultar e chamar à razão. Mas pelo contrário, falou calmamente e disse:
- Só quero entender o porquê… Mereço uma justificação!
Ele sabia que dificilmente se poderia esquivar, de adiar novamente aquele momento. Necessitava de uma resposta rápida e concisa, mas qual? Ele sabia que não tinha justificação, mas precisava de a silenciar…
- Tenho medo…
Ela estranhou a resposta. Sabia que tudo que ele dissesse seria mentira, ou preferia acreditar que assim fosse…
- Medo de estares comigo?!
- Não, medo de te amar.




Poema

Em todas as ruas te encontro
Em todas as ruas te perco
Conheço tão bem o teu corpo
Sonhei tanto tua figura
Que é de olhos fechados que eu ando
A limitar a tua altura
E bebo água e sorvo o ar
Que te atravessou a cintura
Tanto tão perto tão real
Que o meu corpo se transfigura
E toca o seu próprio elemento
Num corpo que já não é seu
Num rio que desapareceu
Onde um braço teu me procura
Em todas as ruas te encontro
Em todas as ruas te perco.

Mário Cesariny de Vasconcelos

Manifestações

Revoltantes, inquietantes… são assim que se descrevem estas últimas noites. Porque é que não me abandonas? Os sonhos são meus, pertencem-me. É cobardia tua manifestares-te e atacares-me desse modo tão cruel apenas quando estou a dormir, quando estou inconsciente e não te posso mandar embora.
Não adianta tapares-me a boca nem abafares os meus gritos (mesmo que ninguém os ouça, tu sabes o quanto eles teimam em sair). Não adianta enumerares as tuas novas conquistas. Não adianta vestires o papel de vítima. Não, não adianta quereres despertar em mim qualquer tipo de sentimento… Hoje, já nada disso me incomoda. Afinal, tudo se torna tão evidente, quando se sabe separar a ténue linha que divide esse sonho da realidade.

O sonho

Pelo Sonho é que vamos,
comovidos e mudos.
Chegamos? Não chegamos?
Haja ou não haja frutos,
pelo sonho é que vamos.

Basta a fé no que temos,
Basta a esperança naquilo
que talvez não teremos.
Basta que a alma demos,
com a mesma alegria,
ao que desconhecemos
e ao que é do dia-a-dia.

Chegamos? Não chegamos?

- Partimos. Vamos. Somos.

Sebastião da Gama


Renascer

Sinto que encontrei a alegria que há tanto me tinha sido retirada.
Agradecer-te, seria insuficiente comparado com a paciência e o carinho que me têm sido dedicados. Não consigo exprimir correctamente o turbilhão de sentimentos que me tem invadido, apenas sei que me faz incrivelmente bem e feliz.
Sim, as palavras por vezes são pérfidas e podem ferir o mais insensível dos seres e como tal não as vou usar em vão, não agora! Agora apenas tento demonstrar-te como as palavras podem ser coloridas, cheias de brilho e tornar ainda mais encantador o que nos une… Eu diria que é algo mágico, mas a magia é tão irreal, tão falsa e inexistente que não se pode aplicar ao que sinto. Qualquer mera definição seria escassa, como tal por mais belas que as palavras sejam é uma beleza finita. No entanto, o que me move é infinitamente grandioso…
O meu amor não me cegou, pelo contrário tornou-me lúcida e crente do que quero… Quero estar contigo e encontrar em cada gesto teu, a felicidade que nos espelha!




Dedicado a B*

Adeus

É difícil apercebermo-nos do instante em que nos perdoamos… Lutei, neguei e reneguei. No fim de trilhar todo o caminho tortuoso, respirei.
Finalmente, foi-me permitido expelir todo o sofrimento concentrado, toda a dor que me prendia os movimentos.
Após tanto tempo de enganos e desencontros, apercebi-me que afinal percorremos o mesmo caminho em busca da resposta que tanto nos teima em calar, apenas o fazemos em sentido inverso... Foi no momento do meu reencontro que te perdi e que me reergui.

De todas as palavras que foram gastas, só me resta a única que tem sido evitada:
Adeus!

Desfecho

Não tenho mais palavras.
Gastei-as a negar-te...
(Só a negar-te eu pude combater
O terror de te ver
Em toda a parte.)

Fosse qual fosse o chão da caminhada,
Era certa a meu lado
A divina presença impertinente
Do teu vulto calado
E paciente...

E lutei, como luta um solitário
Quando alguém lhe perturba a solidão.
Fechado num ouriço de recusas,
Soltei a voz, arma que tu não usas,
Sempre silencioso na agressão.

Mas o tempo moeu na sua mó
O joio amargo do que te dizia...
Agora somos dois obstinados,
mudos e malogrados,
Que apenas vão a par na teimosia.

Miguel Torga

Em espera...

Esperar, esperar, esperar… Cada vez me convenço mais que estou destinada a esperar por tudo e todos. A Luísa já começa a exceder-se na sua falta de pontualidade…
- Olá Ana! Desculpa o atraso, está um trânsito infernal, não deu mesmo para chegar mais cedo.
- Eu também tenho carro, também tenho de o estacionar e também apanhei trânsito, mas para cumprir o horário combinado, saí mais cedo!
- Ena, já vi que a noite foi longa…
- Nem imaginas quanto…
- O que é que aconteceu para estares nesse estado?
- A única coisa que nunca devia ter acontecido…
- Oh não! Não me digas que é o que estou a pensar… Voltaste para o Rui?
- Pior!
- Pior? Já me estás a assustar... Acordaste nalguma cama que não era tua, sem te aperceberes? (risos)
- Luísa, deixa-te de piadas! O assunto é sério.
- Ok, desculpa! Podes dizer, não te interrompo mais.
- Fui para a cama com… Bem, com o…
- Com o…
- Com o Tiago!
- Tiago? Que Tiago?
- Oh Luísa, o Tiago…
- Hã? Não acredito! O Tiago Gomes? O teu melhor amigo?!
- Sim, o próprio!
- Oh Ana, mas tu endoideceste? Gostas dele? Como é que isso aconteceu?
- Gosto, mas só como amigo, claro. Nem eu sei como é que aconteceu. Eu estava em casa sozinha, comecei a pegar nas cartas do Rui e lembrei-me dos nossos melhores momentos… Senti-me deprimida, entendes? Eu precisava de desabafar com alguém, como sabia que tinhas saído com o Pedro, liguei ao Tiago…
- Hmm hmm… E ele disponibilizou-se logo a ir ter contigo?!
- Sim… Eu comecei a falar de tudo que já tinha passado com o Rui, das coisas que ele já me tinha feito e num instante qualquer, ele abraçou-me e eu beijei-o…
- Pois, suponho que depois do sofá da sala para o quarto tenha sido num instante.
- Hmm hmm… O pior foi que hoje de manhã quando acordei, ele já tinha saído. Não deixou nenhum recado, não me telefonou o dia inteiro, nada. Não me disse rigorosamente nada, até agora.
- E o que é que estás a pensar fazer?
- Nada, fico à espera que ele ligue…
Continuo à espera, desta vez espero não ter perdido um amigo.

Pausa

Tenho andado um pouco ausente... Não que queira, mas porque me tem sido impossível reservar o tempo necessário que este blog necessita. A falta de inspiração também em nada contribuiu para melhorar a situação.
Sendo este um post diferente dos anteriores, não me poderia esquecer de deixar um especial "agradecimento" à hipocrisia de certas pessoas. Foi graças a elas, que me foi permitido ver o contraste com a amizade e companheirismo que outros demonstram e que por vezes não damos o devido valor. É a falar da vida alheia que cada um revê a mediocridade em que vive.
Os meus sinceros agradecimentos vão, claro, para quem já visitou e continua a espreitar este mais recente cantinho...
Obrigada!

Justificação

Tudo se resume a um erro. Erro que insisto em fazer da minha verdade. Se é verdade que se aprende com os erros, sem dúvida eu aprendi contigo! Ironia das ironias, afinal não te posso recriminar, talvez te deva agradecer…
Julgas-te sem feitos alguns? Intitulo-me então como a tua grande obra, falhada e inacabada, mas que te pertence. Moldaste-me no que hoje sou, no que me reconheço. Como tal, ao meu mestre apenas devo… agradecimentos?!

Telefonema de despedida!!!

Mais um dia que promete…
Acho que o café ainda não me despertou o suficiente para aguentar todo trabalho que tenho em atraso. Daqui a pouco, nem a secretária que está à minha frente consigo ver, tal é a quantidade de papel acumulado. É incrível a agitação que esta redacção tem logo às 9:00 da manhã.
Oh não! O telemóvel a tocar a esta hora só pode ser má notícia, ou é a mãezinha com mais uma das suas lamechices a reclamar a minha falta de atenção ou é o Rui… Não posso crer, é mesmo o Rui! Não atendo, para todos os efeitos não estou.
”Ana, o teu telemóvel está a tocar!” Boa Sara, que oportuna que tu és, ele está mesmo ao meu lado e não ouvia nada, enfim… “Eu sei, já atendo.” Desta não me escapo, os olhares já estão todos concentrados no bichinho que não pára de vibrar e tocar…
- Diz!
- Bom dia, meu amor.
- Não sou nada tua, agora despacha-te a dizer o que queres. Tens 10 segundos, queres aproveitá-los ou posso desligar já?
- Não digas isso, tu és tudo para mim. Querida, essa disposição toda pela manhã até parece mal.
- Acabaste então de ficar sem nada, sendo assim desligo!
- Não, não, espera!
- Rui, não temos mais nada para falar, estás a fazer-me perder tempo e já estou no meu local de trabalho, por favor sê breve.
- Ok, queria só convidar-te para almoçar. Por favor Ana, dá-me só uma oportunidade para te explicar o que aconteceu…
- Não quero saber das tuas explicações, quero que me deixes em paz e que me deixes trabalhar, quanto ao convite para almoçar a resposta é NÃO!
- Ana, eu amo-te tanto, dá-me uma segunda oportunidade. Pensa em nós, em tudo o que passámos juntos, 3 anos de tanta felicidade não podem acabar assim…
- Assim como? Com a gaja que puseste na nossa cama?
- Ana, não sabes como me arrependo amargamente desse dia. Eu estava bêbado, tu viste…
- Não, definitivamente não foi isso que vi. Não insistas, acabou! Adeus!
- Espera, não desligues! Só mais uma coisa, andas com alguém?
- Não tenho que te dar justificações, mas se fazes tanta questão de saber… Sim, ando!
- Eu sabia. És mesmo cabra, ainda mal acabámos já te andas a deitar com outro gajo qualquer…
- Oh Rui, vai-te foder! Esquece que existo e deixa-me em paz!
- Juro-te que te vais arrepender de tudo o que me estás a fazer.
Já não bastava a conversa animada, ainda tinha de ter plateia para assistir a tudo. Não tarda nada, passamos de um jornal conceituado para revista cor-de-rosa. O descaramento do Rui deixou-me completamente atónita. É incrível como continuo a amar aquele cabrão depois de tudo o que me fez…
Parece que os papeis acumulados à minha frente me querem trazer novamente à realidade. Bem sabia que o dia iria prometer...

A carta...

Meu amor:

Tem sido tão difícil continuar a acordar todas as manhãs sem ti ao meu lado. A cama tornou-se infinitamente grande só para acolher o meu corpo, sem ti perco-me na sua imensidão. Continuo a agarrar-me à tua almofada de manhã, fecho os olhos e voltamos a juntar os nossos corpos na mesma cama que contigo se vai tornando cada vez mais pequena e acolhedora… A tua essência ainda se mantém entranhada na almofada, nos lençóis, no quarto, na minha vida…
Tomei a dose extra de café pela manhã, para me manter em pé com menos esforço do que tem sido habitual. Preocupante é que o vício do café não é inversamente proporcional ao do tabaco. Eu continuo a lembrar-me constantemente dos teus avisos e da preocupação que tinhas sobre o meu estado de saúde, acho que é esse o motivo de uma dose relativamente controlada de cafeína e nicotina no meu organismo.
Sinto que estou cada vez mais isolada do mundo, ou o mundo isolado de mim, já não sei… Sei que no momento, só posso contar contigo, com estas cartas que escrevo, mesmo sabendo que infelizmente nunca as poderás ler.
Faz dois anos e meio que, enfim, que partiste, que tomaste a decisão irremediável de me deixares à mercê deste mundo medíocre, sem a tua protecção, sem o teu apoio.
Sei que não te tenho dito nada de novo, mas por enquanto é assim que (sobre)vivo.


Eternamente tua,
Ana

Saudades!

Numa daquelas noites, em que espero desesperadamente que o sono me invada, sentei-me de pernas cruzadas na cama enquanto ia desdobrando os mil pedaços em que a carta se encontrava. É uma das cartas às quais nunca tiveste acesso, uma das que ficam guardadas no fundo da gaveta à espera do momento certo para serem divulgadas. Relembro com um sorriso, misto de tristeza e saudade, os tempos em que foi escrita… Não era necessário a data marcada para saber exactamente o dia em que a escrevi, são momentos que estão gravados e dificilmente serão esquecidos.

Senti-me a recuar no tempo, senti saudades…
Senti saudades do tempo que passávamos juntos em que não existia tempo. Senti saudades dos teus beijos, das tuas carícias. Senti saudades dos teus sussurros ao ouvido. Senti saudades das tuas mãos a tocarem suavemente no meu cabelo. Senti saudades do calor dos teus abraços, do teu perfume, do respirar calmo, cada vez que apoiava a cabeça no teu peito.
Sim, sinto saudades desses tempos que agora apenas residem na minha memória! Tenho saudades minhas, de quem era e como era quando estava contigo…

Voltei a dobrar a carta, pelos mesmos vincos em que ela já tinha sido dobrada vezes sem conta e guardei-a no canto que sempre lhe foi destinada.

A claridade do novo dia começa a interferir nos meus olhos, sinto o ressoar dos passos da minha mãe, seguidos de um aviso “Acorda! Já e tarde.”

Não gosto, Não quero!

Por vezes ponho-me a pensar no que gostaria de ter, nos meus sonhos, nas minhas ambições, no que gosto… Só encontro certezas no que não quero, no que não gosto e no que não ambiciono.


(by Couto)


Não gosto que me julguem sem me conhecer;
Não quero que me digam o que devo fazer;
Não gosto de viver na hipocrisia;
Não quero fingir falsa alegria;
Não gosto de viver na ilusão;
Não quero que me olhem com lamentação;
Não gosto que me peçam satisfações;
Não quero que me dêem falsas justificações;
Não gosto que mintam para me satisfazer;
Não quero sentir um falso prazer;

Certezas?!
Não quero o que não gosto e não gosto do que não quero!

Seguidores

Movimento Musical

Publicidade

Já se movimentaram...